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Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios pode se gabar de ser um dos melhores títulos de filmes dos últimos tempos. Lembro que o meu interesse pela história surgiu por seu nome extenso do que outra coisa. No entanto, teria que assistir e ver se o seu conteúdo fazia juz à poesia escrita.

Longe de ser pretensioso e achar que a minha opinião determinaria alguma coisa, porém o significado dessa longa frase trouxe deveras inspirações e fazia a cada nova divulgação aumentar a minha expectativa.

A produção roteirizada e dirigida por Beto Brant com a colaboração de Renato Ciasca é uma adaptação do livro que leva o mesmo nome da trama, escrita por Marçal Aquino, que também colaborou com o roteiro.

Na trama, como de costume nas obras de Brant existe um clima intimista, um Brasil um pouco conhecido pelos demais. Boa parte da história é habitada no norte, no estado do Pará, criando em  seu público a sensação de uma nova realidade, levando em consideração que a maioria da bilheteria desconhece a região filmada. Por isso, que logo de cara, entre o rosto de seu protagonista, O fotografo Cauby (Gustavo Machado) e as os civis do local, o nosso olhar se desvia em meio a tantos rostos sofridos. Índices que mais tarde viriam a confirmar a atmosfera triste do enredo.

Com o excelente roteiro, vemos de uma maneira nem tanto eficaz a montagem que mostra as idas e vindas entre o passado e o presente. Nesse clima, conhecemos a bela e ex- prostituta Lavínia (Camila Pitanga) e o seu marido e pastor Ernani (Zé Carlos Machado). Num plano secundário, porém fundamental para o desdobramento da história, também conhecemos o jornalista Victor Laurence (Gero Camilo).

Dentro de um argumento bastante real, portanto rotineiro em nossa sociedade, o longa metragem conta a rotina do trio amoroso, Cauby, Lavínia e Ernani em meio a uma terra que através do seu clima distante e escuro estabelece o seu retrocesso e o flerte com o passado, transparecendo uma total falta de estrutura, que em relação as outras partes do país consegue ser ainda mais precária, seja nas condições básicas ou nas relação pessoais ali mostradas.

Dessa maneira, a religião não só tem seu espaço registrado como também direciona comportamentos e ações, em contra partida se analisarmos o todo, encontraríamos a mesma doutrinação presente no sudeste, com tudo na região habitada pelo filme presenciamos a doutrinação sem nenhuma flexibilidade, beirando a escassez total de orientação intelectual.

É interessante notar, que os três personagens se contrapõem em suas personalidades, enquanto o fotografo é um homem ideológico e independente, a ex-prostituta é a figura que mais se aproxima daquele espaço, fatos exaltados através dos seus receios infinitos, já Ernani é a redenção de um individuo, que foge das tentações da capital e por meio dos seus bons pensamentos visa determinar, controlar e não sugerir. Nesse caso, Lavínia vive num paradoxo, precisa se mostrar controlada por seu marido, pela gratidão que sente, enquanto sente vontade de se entregar ao mar de possibilidades de Cauby, mas tem medo da sombra que essa decisão tomada pode criar.

Em relação aos recursos técnicos, a produção mostra-se de alta qualidade, a fotografia de Lula Araujo tem vida, retratam as angústias dos espaços filmados, a câmera acompanha a situação, os rostos, adentra nas fotografias estáticas, sai do habitual. O elenco para mim é o ponto alto da fita, O trio principal dá um show de interpretação, um cuidado com cada fala, uma sensibilidade na roupagem daquelas pessoas sofridas, uma sincronia que nós atinge e causa no público uma angústia de querer saber o desenrolar daquelas dramas narrados.

Outro fator que chama a nossa atenção e reforça a realidade daquela circunstância, é a mistura do real e fictício, quando em determinada hora, a direção estabelece uma importância ao fato recorrente ao ano passado, quando houve um plebiscito na região que dava a escolha a sociedade em decidir se o estado do Pará seria dividido.

Pontos altos que juntos completam uma obra importante a ser visto, seja pela delicadeza do seu acabamento ou pela vontade que os atores nós passam em cada cena ou por qualquer outra coisa que faça você se entregar ao melhor filme de Beto Brant.

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