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A batida parece se conectar com o nosso cérebro, que por sua vez ativa o nosso corpo, o balanço entra em comunhão com o ritmo. De repente a juventude prevalece e os problemas se afastam de nossa visão. Somos levando ao um paraíso artificial.

O filme Paraíso Artificiais dirigido pelo estreante Marcos Prado usa o universo da música eletrônica para narrar às idas e vidas de um amor. Particularmente por ter freqüentando por um longo tempo esse ambiente, fiquei interessado em conferir essa produção.

História que inicia contando os fins para mostrar os meios. Saindo de uma prisão, conhecemos Nando (Luca Bianchi) um jovem da classe média, assíduo freqüentador das festas eletrônicas. Já de premissa, reparamos em sua feição triste e desgastada, como um contraponto, a própria montagem embarca no passado para mostrar o mesmo personagem ao avesso, exalando esperança e juventude.

Igualmente importante para a trama, encontramos Érika (Nathalia Dill), uma garota também da classe média, que é uma DJ em ascensão, ao lado de sua amiga Lara (Lívia Bueno) demonstram toda a magnitude dessa amizade, além de terem a leveza de curtirem cada momento como se fosse o último.

O fio condutor trata de entrelaçar a vida do trio, que parecido com uma viagem, embarcam num infinito mundo sensações, provocadas pelas drogas alucinógenas. Entre uma praia paradisíaca do nordeste, o Rio de Janeiro contemporâneo e Amsterdã, ocorrem os três tempos do longa metragem. Planos que trazem a tona outros personagens importantes para o desdobramento, Patrick (Bernardo Melo Barreto) e Lipe (César Cardadeiro), o primeiro amigo e o segundo irmão de Nando.

Dentro da montagem frenética, como se pede o roteiro, vemos nos primeiros momentos duas falhas que a meu ver desestruturam o andamento do filme e o torna um tanto desinteressante. A primeira falha é a presença de insights sem propósito algum, a não ser o de chocar e a criação de uma falsa ilusão de aproximar o público da sensação de estar drogado, ou seja, digo a parte em que os personagens da Érika e Lara estão alterados pela planta dada por Mark (Roney Vilela) e começam a imaginar paisagens, quebrando totalmente o frenético andamento de cenas que até ali estava ocorrendo e não agregando informação nenhuma com essa cena.

A segundo falha, não tão radical, porém que senti falta, foi á ausência de conflitos na primeira meia hora da produção, por qual só recebemos imagens e acompanhamos o percurso dos protagonistas, sem falar que nesse tempo, o abuso de clichês é evidente, como na caricatura imposta no personagem que trafica as drogas de Amsterdã para o Brasil.

Porém, da meia hora em diante, o crescimento da trama também é evidente, quando o conflito surge e toma a nossa atenção, apesar de ser um argumento batido e que nesse caso não inova, simplesmente mostra o mais do mesmo, somos agraciados por boas atuações e cenas que merecem destaque pelo refinamento, créditos a preparadora de elenco Fátima Toledo, que trouxe a verdade necessária e não se utilizou de recursos falsários.

Com tudo, a beleza estética da fotografia no quesito retratamento das raves deve ser dito e talvez seja uma das partes mais interessantes, com o qual o diretor realmente leva seu espectador para aquele universo e importante dizer que nada registrado ali é mais ou menos, está tudo equilibrado, a euforia e a viagem é aquela mesmo.

É engraçado e talvez só eu associe isso, mas em determinados momentos a relação entre Nando e seu irmão Lipe, lembra bastante os irmãos do “A outra história americana”. O irmão mais novo ser o espelho do mais velho. Séria de bom agrado se o próprio roteiro insistisse e aprofunda-se mais nessa relação, que com certeza daria muito pano na manga.

O saldo que fica é mais positivo do que negativo, apesar dos erros de percurso, vemos um bom cinema jovem. Um retrato dessa cena eletrônica que pela primeira vez é abordada pelo cinema nacional. Ainda não sei dizer, se a abordagem é isenta e visa mostrar somente, porém aquele moralismo chato e radical passa longe daqui, sendo um ponto alto.

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