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O que os longas metragens Drive e Shame têm em comum? Além de ambas as produções terem sido esquecidas pelo Oscar nas principais categorias e a atriz Carey Mulligan estar presente nas duas histórias, a resposta está no caráter de seus protagonistas, os dois trazem em suas personalidades uma leve semelhança no que diz respeito ao uso do instinto humano. Isso, porque o Drive (Ryan Gosling) e Brandon (Michael Fassbender) demonstram fragilidade e perda de controle quando utilizam seus instintos mais íntimos.

Na sinopse das duas produções, o personagem de Drive é um homem solitário que trabalha como duble de filmes e nas horas vagas é piloto de fuga, em contrapartida, a sua vida pessoal se desdobra quando se aproxima de uma vizinha e se apaixona, como se no momento soubesse que dessa paixão a sua vida poderia sair dos trilhos do seu controle, em Shame, o seu protagonista é um empresário viciado em sexo, que não consegue manter a sua vida tranqüila por conta do vicio e para piorar a sua situação, a sua irma acaba-se de mudar para seu apartamento, mostrando fortes doses de carência, o que se torna um contraponto diante da sua obsessão.

Capa do filme Drive

Capa do filme Drive

Em Drive, a fita dirigida por Nicolas Winding Refn, o personagem se mostra totalmente distante do seu redor quando é levado há estabelecer uma relação com outra pessoa, ao mesmo tempo em que diante do seu ambiente de trabalho mostra-se o domínio total das possíveis possibilidades que podem ocorrer como se estivesse há frente do seu tempo.

Capa do filme Shame

Capa do filme Shame

Já em Shame, obra dirigida por Steve Macqueen, Brandon também demonstra limitação em seus relacionamentos, no entanto, ele se esquiva por estar dominado na sua obsessão e não, por ter dificuldade em se comunicar.

As duas produções demonstram histórias coesas e humanas, apesar de quando analisadas sem a compreensão das nuances parecem ser distintas em suas essências, porém estão narrando às dificuldades nos percursos da vida de um indivíduo, só que utilizam um prisma diferente.

O piloto que evidencia sua confiança em todos os pontos da trama, deixa transparecer em detalhes, a sua segurança sendo rompida pela paixão. Paixão essa que transforma a sua vida quase padronizada.

Shame

Shame

Todos os pontos da trama de Shame identificam a lacuna do seu protagonista, o clima cinza retrata a sua tristeza e o forte uso da trilha sonora surge para cobrir o incrível vácuo que se tornou a sua vida.

Em compensação a trilha sonora em Drive aparece para confirmar a sua queda de humor e a crescente crise das circunstâncias que o seu protagonista se envolveu e. Em muitos momentos conseguimos enxergar através do silêncio estabelecido pelas cenas o mundo desse sujeito sem nome e que fala pouco, mas tem uma feição que se comunica bem mais que qualquer palavra dita.

Brandon no filme Shame

Brandon no filme Shame

O silêncio de Shame é angústia de Brandon, que por meio do seu rosto grita e pede socorro em todas as ocasiões, seja por um olhar vazio dado na janela do quarto que aluga ou pelo ato de redenção onde queima todos os produtos pornográficos que detém. Mas a verdadeira redenção é assumir o problema e depois começar enxergar as possíveis saídas através de sua confirmação. O mais fascinante na obra é que em nenhum momento, fica claro que Brandon sabe exatamente o grau de sua dependência sexual, algo que está ao nosso cargo decidirmos, já que o começo e o final terminam aparentemente com a mesma situação e no mesmo espaço.

Drive

Drive

Porém, no caso do drive não é encontrado uma saída e muito menos uma perspectiva, já que a situação no qual entrou deixará fortes traumas futuros, então, é decidido dar uma basta de uma vez por todas afim de um desfecho final no clímax. Através de cenas memoráveis sabemos os momentos de despedidas e decisões do protagonista.

O curioso é que em ambas as tramas, as personagens da Carey Mulligan funcionam como um possível refresco para seus protagonistas, a possível mudança que não ocorre, o tipo de pessoa que pode surgir na vida de outra para esclarecer respostas e promover momentos tranquilos. Só, que o oposto também ocorre, através de sua presença que a vida de ambos são testadas e reviradas de uma forma que foge do próprio domínio.

Cena do elevador no filme Drive

Cena do elevador no filme Drive

Outra semelhança que ambas as fitas usufruem é a sutileza em registrar sentimentos e criar verdadeiras obras de arte em determinados momentos, como em drive, a cena do elevador em que o sujeito sem nome enfim se entrega a sua paixão, em compensação a sua entrega já tem clima de despedida, é como se dissesse a sim mesmo, estou experimentando o seu beijo, porém vou precisar ir embora da sua vida e nessa ocasião temos a iluminação da câmera baixando pouco a pouco como se houvesse parado o tempo para o registro, em questões de segundos as luzes voltam ao seu normal quando o piloto precisa matar a pessoa que divide o mesmo elevador com o casal e está lá para matá-lo, ou seja, além dos recursos técnicos, a cena diz muito, mostra como esse protagonista pode habitar diferentes sentimentos em questões de horas, amor e de repente o ódio.

Shame

Shame

Em Shame, a cena que vale a contemplação é quando o empresário está transando com duas melhores e nenhum momento a câmera registra o rosto delas, o que vemos na tela são pedaços dos seus corpos, pedaços daquela transa, como se estivéssemos dentro da mente do protagonista, como se estivéssemos testemunhando a razão sendo reprimida pela obsessão carnal, a que já não satisfaz, mas que através do seu rosto vemos a sua infelicidade e a sua queda, o momento que inconscientemente admite a derrota e não tem como controlá-la.  A trilha é usada como fator determinante nessa ocasião camuflando o abalo (fragilidade) de um ser humano.

Drive

Drive

Drive e Shame expostos em seus fragmentos são obras para serem cultuadas não só por cinéfilos, mas por qualquer pessoa que se identifique ou estude os andamentos da vida. Dois filmes que usam a verdade como o fio condutor, apesar de Drive ter uma cena ou outra remetendo grandes clássicos de ações revela uma atmosfera real e sombria, investe no silêncio ao invés de inserir diálogos vazios. As duas sinopses são intimistas, têm cheiro, cor e tristeza por isso deixaram em mim uma inquietação que dura até agora.

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