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O diagnóstico atual da nossa sociedade: Perdemos para o nosso ego, vivemos tempos frios e distantes de nós mesmos. A banalização se torna a grande protagonista desse enredo mudo, a nossa rotina se cria através de comentários bobos e preconceituosos. E a sensatez foi posta no porão, seguimos padrões maniqueístas e atiramos nossas opiniões para todos os assuntos, presos no bem e no mal, no sim e no não, cegos, desprovidos do olhar para o detalhe e a entrelinha jamais pareceu tão abandonada.

Há pouco mais de uma semana, veio elaborando no pensamento e brigando contra meu cansaço mental de contestar esse egocentrismo que surge aos quatro cantos da sociedade, por achar de valia um grito no escuro, a favor da criatividade em detrimento do egoísmo, ou seja, ter a ciência de que a vida não se faz apenas por duas visões diferentes, que podemos tirar milhões de proveito de um objeto e no final nem sequer aproximar-se do bom ou do ruim.

Partindo para o campo cultural, a crítica em boa parte do seu exercício se julga mais importante que o próprio objeto estudado, uma deselegância intelectual sem cabimento. Particularmente, penso que a crítica bem definida é importante para iniciar-se a determinada obra e ajudar o leitor enxergar as entrelinhas (visando identificar a razão de determinados sentimentos obtidos pelo público na sessão). No entanto, quando os críticos estão preocupados em mostrar seu conhecimento extraordinário e esquecem de fato, de analisarem o que se propuseram analisar, mostra-se um incrível desserviço com a comunidade em geral e abre-se a janela do descartável, embora esse, na maioria do caso doutrine indivíduos influenciados a serem clones de discursos incoerentes e farsescos.

Hugo Cabret (Imagem do Filme)

A minha pulsação que já vem há tempos, principalmente quando observo a banalização surgindo da boca de alguém, retornou de maneira agressiva, pós seção do longa metragem “A Invenção de Hugo Cabret”, quando deparei em diversos portais,opiniões tontas, grosseiras e sem cabimento, entretanto os dois fatores no quais julgo de menor tolerância é a ausência do amor e alma pela própria sétima arte comprovado nas opiniões, vindas de profissionais que dizem ser cinéfilos, dependentes dessa arte para viver.

Vale ressaltar que a ausência de amor pela sétima arte foi apontada visto que o novo filme de Martin Scorsese é uma singela e formidável iniciação ao cinema e funciona também como uma bela homenagem, portanto o tratamento dado deveria ter sido mais respeitoso. Mesmo se nos créditos finais alguns erros fossem identificados. No entanto, é importante enfatizar que não é obrigação de ninguém gostar do filme, em contra partida, se o argumento for contrário que seja sólido e bem estruturado, já que atacar defendendo o histórico do diretor em detrimento da atualidade me parece um tanto infantil. Visto que uma posição assim se pauta pelos feitos antigos e engessa qualquer oportunidade de se reinventar.

Martin Scorsese - Diretor do filme Hugo Cabret

E tem certas obras que surgem de uma necessidade de trazer-nos um saudosismo do que não vivemos ou levar-nos ao novo universo, tendo como objetivo o compartilhamento da magia, e nesse exemplo citado, a magia é a essência do cinema que deseja ser vista por muitas pessoas. Entenda bem, antes de toda burocracia intelectual, vamos contemplar e agradecer e não analisarmos como um objeto comum sem alma e cor. Criatividade primeira, emoção em seguida e depois racionalização.

A adaptação cinematográfica do livro que leva o mesmo nome do longa metragem, do escritor Brian Selznick é um primor por ir contra o mercado de entretenimento barato e sem ar. Há todo momento registrado, nós (público) sentimos dentro da estação de trem. Um personagem secundário que habita aquele mundo e respira Paris dos anos 30.

Cena do Filme Hugo Cabret

Mostrando as vias de fato, uma parte da crítica, sobretudo os mais novos sustentam a herança do culto pelo passado ao mesmo tempo em que contraria essa posição, ou seja, esquecem da alma em algum cyber café Cult e são influenciados por alguma opinião maior e transforma-se em cibernéticos da análise crua.

Podemos enxergar pontos negativos em Hugo Cabret, talvez o ritmo da narrativa um pouco lento, porém a generosidade desse mestre em criar um universo impar, aproximando o novo com o antigo, recriando circunstâncias que pautaram a história dos primeiros filmes existentes, trazendo a tona nomes do cinema, que certamente estarão esquecidos de forma burocrática em enciclopédias do mesmo.

O empobrecimento do individuo surge quando não existe uma visão ampla de determinado assunto. Simplesmente apontar defeitos e estar indiferente dos possíveis percursos que a produção possa tomar, logo do seu poder em atrair novos cinéfilos é vazio. Tenho cá, a idéia que a história do menino órfão possa aproximar muita criança ao mundo cinematográfico e também faça muitos olharem com outros olhos os livros em geral, como uma forma divertida de obter conhecimento, um possível resultado inconsciente. Sem falar que a história motiva as crianças a estudarem de uma forma espontânea e divertida.

O Artista

A invenção de Hugo Cabret não é uma obra prima, em compensação é uma obra definitiva. Um exemplo que utiliza do mesmo objeto trabalhado, O Artista (Diretor: Michel Hazanavicius), queridinho de alguns e rejeitados por outros é tão belo e formidável quanto Cabret. Uma produção que agradece a sua existência e convida a gente para admirar o seu grande pai: O Cinema.

Apesar de estarmos na era da curtição, da necessidade de qualificação restrita em duas visões sempre existirá a sala escura, a pipoca e a bela história mostrada na tela. O Artista e Cabret não mentem.

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