Shocking Blue, Holanda, 2010
Há principio ao ler a sinopse podemos imaginar que se trata de mais uma história sobre adolescente com apenas uma diferença das demais, dessa vez é vista sobre o panorama Holandês (país realizador). No entanto, Skocking Blue tem a dose necessária de poesia, eficiência cinematográfica e realidade que desarma o telespectador, aproximando-o da atmosfera e ainda conseguindo causar uma identificação com as imagens transmitidas pela tela, isso indefere da nacionalidade. A trama que passa nos campos holandeses acontece a todo instante no asfalto de São Paulo, nas luzes de Paris, nas megalópoles americanas ou na agitada Tóquio, ocorre nos quatro cantos do planeta, porque é uma circunstância natural do adolescente. Circunstâncias pautadas pela insegurança, por sua vez, o que pode influenciar a fase adulta. E os elementos cinematográficos escolhidos para abordar esse tema desgastado e nem sempre debatido com embasamento foram e são o diferencial dessa trama em relação às outras. A narrativa acompanha o amadurecimento do seu protagonista William através de uma vida relativamente pacata entrando em conflito a partir de inúmeros acontecimentos, a fotografia colorida deixa claro o campo de possibilidades dos adolescentes da região através do plano amplo da plantação de tulipas, além de dizer nas entrelinhas que adolescentes são como flores que precisam ser regadas diariamente. Mas a obra pode ser passada por outras releituras, vai além, mostra por meio de uma cena incrível a necessidade da troca e do encontro de dois seres remetendo ao cruzamento de duas distintas flores. No final das contas não há restrições, quando a obra é competente ela viaja em diferentes formas e jeitos, porém é preciso deixar claro que antes das palavras a obra mostrada na tela já diz por si só, causando uma grande experiência para o espectador. Para encerrar vale ressaltar a combinação de uma trilha sonora esperta e atuações naturais fazendo da produção um registro a ser mostrado e estudando a quem possa interessar.
 Mentiras Sinceras, Brasil, 2011
Trata-se da metalinguagem sendo aplicada literalmente, onde o teatro e o cinema trabalham juntos, usam o mesmo espaço, oras se confundem, mas conseguem desenvolver um relato instigante que possa interessar aos consumidores de teatro. Já que apesar de usar o espaço cinematográfico a produção segue uma linha documental que registra a preparação de uma peça teatral chamada Mente Mentira, escrita pelo dramaturgo norte-americano Sam Shepard, reunindo um grande elenco composto por Malvino Salvador, Fernanda Machado, Keli Freitas, Zé Carlos Machado, Roza Groubman, Marcos Martins, Malu Valle, Augusto Zacchi e Thiago Fragoso. O interessante da trama não é só o registro da montagem teatral, mas a temática em si passeando aos quatro cantos da narrativa, abrindo espaço para o quase eterno conflito entre a realidade e ficção que se misturam na pré montagem, nos ensaios, nos depoimentos dos atores, na convivência, levando nosso cérebro a fritar com tanta informação disponibilizada. Porém, o longa metragem ainda funciona mais como um documento registrado de uma peça teatral. Para nós, o público significou entrar na intimidade de uma pré-concepção aplicada no palco.
 Periferic, Romênia, 2010
Ao assistir Periferic aumentei a certeza que a distância é o único argumento que nos difere de outras sociedades, em contra partida sabemos que existem culturas e costumes que guiam o andamento de um povo. Porém se formos fazer uma análise seca veríamos que problemas são todos iguais independentes do território. Esse filme romeno nos leva a uma viagem nas degradações humanas, mas calma, tem o seu fim marcado. Matilda, mulher que, com metade de sua sentença de prisão cumprida, ganha um indulto temporário de 24 horas, na hora de sua saída em diante, a trama ganha fôlego e é pontuada de acordo com as horas que se passam e com o reencontro da protagonista com os três pontos chaves da narração, o seu irmão Andrei, seu ex-namorado Paul e seu filho Toma. Um recurso que vale apena destacar no roteiro é a história ter a profundidade necessária para atrair o público, antes mesmo que ela se inicie, causando e dando poder para o espectador montar o próprio passado da protagonista. Seguindo uma linha real, os atores roubam a cena, rendendo ótimas passagens, um excelente grupo de elenco que direciona as nossas expectativas diante da obra. A forma da condução técnica da produção é aquela tradicional já conhecida em histórias intimistas, a câmera na mão, os planos oras longos, oras close, a fotografia cinzenta aproximando da atmosfera sombria e dramática da história. Mas se tivesse algo a ser elogiado em termos técnicos diria que a montagem rápida (ligeira) e contemporânea dialoga muito bem com a modernidade cinematográfica e talvez seja um dos pontos altos da fita. O diretor Bogdan George Apetri mostrou para seção onde estava que somos (o mundo) mais semelhantes do que parece. 
Namorada, EUA, 2011
Típica produção independente que parece ter sido feita especialmente para integrar festivais de cinema mundo a fora. Com uma gênese alternativa (entendem-se recursos modestos) tão latente que conseguimos notar tamanho espírito nos quatro cantos do longa metragem. Para quem consome o gênero, como este que escreve é um ótimo aperitivo.  Conversando com um amigo, momentos antes da sessão, estive deparado a uma questão colocada pelo próprio que dizia que a história poderia ser muito apelativa por conta de o protagonista ter síndrome de down. Na hora, não obtive a resposta interna para a dúvida, podia ser um elemento funcionando como engrenagem com intuito de atrair o público para uma zona de conforto sentimental, levando-nos para uma falsa percepção. Já dentro da sala: enxerguei a dimensão da realização social que essa produção cinematográfica alcançou através da escolha de um protagonista representando a classe dos portadores da síndrome de down, já não importava qualquer coisa que não assemelhasse a sensibilidade transmitida na tela. Existem certos objetos que merecem ser analisados com outro viés, principalmente quando a generosidade é o fio condutor do seu percurso. No entanto precisam ser pontuados alguns deslizes ao longo da trama, poucos no seu decorrer, mas que não deixem de se percebidos, caso dos cortes que são equivocados em algumas ocasiões, também o roteiro mostrando alguns vazios e clichês no desenrolar da trama. Em compensação como sublinhado acima a atmosfera sensível beirando a inocência e o sorriso sincero do protagonista direcionam o nosso olhar que mostra ser impossível não se emocionar com as cenas em que Evan demonstra o seu sentimento por Candy. Sentimentos por sua vez que guiam o clímax da trama e resulta numa incrível noção de humanidade por parte de nós, o público.
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