Deixe o saber e o pensar restrito e guardado dentro de uma monografia entregue em algum campus por ai – disse ela em pleno turbilhão de teorias que saiam da minha boca. Era como se ela estivesse ausente da própria vontade estando presente fisicamente na minha frente sentada na cadeira daquela lanchonete. Os ouvidos não estavam dispostos a prestarem atenção no que eu dizia. Obviamente que o corpo tinha planos, vagarosamente a cintura se mexia na cadeira, aqueles olhos estavam distantes, sentia. Saltitantes.

A complexidade se estendia aos quatro cantos daquela lanchonete. Percebi que o ambiente torcia silenciosamente para meu êxito carnal. Por dentro daqueles rostos angustiados havia uma criança querendo redescobrir a sensualidade afastada pelo tempo.

O antigo e previsível senso comum impregnava aquele espaço, da TV passando a novela repetida, dos talheres bem organizados sobre a mesa, das cervejas com marcas famosas e algumas estrangeiras para esboçar diretamente o entretenimento boêmio nada diferenciado.

Está certo, fugi descaradamente da troca de olhares que ali rolava, mas era verdade que não tinha acordado naquele dia com o intuito de transar com a pequena. A modernidade ao invés de alegrar  meus dias, estava me deixando na pior, tirando o meu sono. Quem diria a regalia mais charmosa de outrora está démodé nos tempos da curtição saturada.

Infame – pensei. Na mente, rolava o atestado: a conversação, a prosa sobre cinema ou musica, ou tantos assuntos que poderiam entrar em voga, podendo ser a pré-liminar do eterno chamego não interessava mais as pequenas, hoje, trata-se de filosofar ou ser culto demais. Não sei onde foi parar a menina que varava a noite, e na medida correta se embriagava e deixava cair dos lábios pequenas gotas de vinho barato, recriando a cada orgasmo conquistado um dialogo clássico da Nouvelle Vague. Ou melhor e não preciso viajar a Europa, cadê a que sentia tesão por saber que era inspiração da poesia de alguém?

Me fale a direção da janela onde posso espiá-las? Não há tempo pro olhar curioso, há sempre um novo orgasmo a sentir. Orgasmos se tornaram efêmeros. As mulheres tão pouco são sacanas quanto a Cleópatra foi, está tudo padrão, vou à farmácia ver se encontro uma mulher que me cure do marasmo dos dias atuais. Pobre do homem que nasce hoje, vai precisar caminhar como o Frodo Bolseiro para achar uma galega que vale a rabada.  

Se ainda parecer dúvidas quanto o diagnóstico, arrisque e tente colocar na vitrola, o velho hino, o que ajudou milhares de casais a eternizar a intimidade dupla, “Jê t`aime, moi non Plus”, verá que até de antiquado será chamado. O clichê de hoje e o bom gosto de ontem. Vaidade burra.

Das meninas e dos meninos, a cena impactante é quantidade, se apagaram da lousa a qualidade. Sexo de verdade, nem a augusta vende mais. O tempo tratou de esconder os últimos clitóris que valessem a curiosidade da língua.  

A garota moderna tem pulso forte, o que é bom, confesso, mas não necessita a auto-afirmação de perguntar aos outros se é gostosa? Perde o encanto rostos angustiados!  Entenda, que a mulher que brigou e conquistou os direitos estampados por cima do decote podendo ser visto no retrovisor do carro parado no transito e a mesma que esta perdida dentro da ditadura da estética.

Tira o botox rapariga. Celulite não é câncer.

O que me acanha é se deparar com um discurso machista dito por lábios delicados. Isso me faz pensar porque o Fred Kruger não invadiu meus sonhos.

Uma matilha de garotas encorajadas e padronizadas por uma falsa malandragem.

Foda é ser mulher, já tentou? Poderiam dizer as feministas coladas no radinho, entendo que há certa razão na afirmação das madames. A história diz por si só que houveram desventuras aplicadas na espécie, só fala pro desencanto partir quando noto que um bolinho de carne vale mais apena do que uma mentira escultural, corpo de modelo, ex-bbb, capa da playboy. A arte de se encorajar na hora do banho corre longe quando vejo na vitrine que uma ex- bbb qualquer pousou novamente peladinha. Quem são essas donas? É tudo manipulação, querem controlar o seu tesão.

Tempo sempre vem, tento avisar, mas não escutam, vai fazer o que?

Deve estar no mar a raiz da verdadeira fêmea, sei disso, pretendo descer a serra o quanto antes, enquanto não tenho dinheiro da gasolina, contrario a torcida. Para um cara assim, que nem eu, ser barrado no diálogo é o fim da possibilidade de acordar olhando para a intimidade alheia no recanto espelhado, marcando gol com direito a placa de honra, dada na saída, por meio das balas mais saborosas da cidade.

Tomei decisão. Olhei nos olhos descrentes de metáforas, entupidos de vontade de quantidade, neguei, ela ouviu um não saindo da minha boca, acabei por ficar. Sessão da tarde a vista, bigode – serve um bolinho de carne para mim. Ouço as vaias do estádio.
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