Barulho de automóveis, ao fundo do meu caminhar, olho de relance pra trás vejo buzinas, sinto cores, toda incertas sem definição, querendo chegar. Logo, se não tivesse andando certamente perguntaria aonde querem chegar? Mas também quero chegar pra amanhã continuar, não posso, tenho pressa, pego do bolso, passo o bilhete, rodo a catraca, fico sozinho estando junto, a porta abre, saio, outra multidão, não encontro ninguém, quero chegar, amanhã continuo, pressa, baldeação, fecho a boca, sinto olhares, cansaço. Em cima de nós, a buzina é ouvida no inconsciente de nosso andar. Viajo nas ruas do pensar, o tempo não para, dormindo tem gente acordado, matando tem gente nascendo. A vida é assim, quando paramos para pensar na vida? Mascar chiclete faz a minha boca falar no meio da multidão, entre os dentes e a saliva encontra-se o gosto desaparecendo lentamente, ajuntando-se as histórias sumindo pelo barulho da porta abrindo. A vida é assim, o metrô não valoriza as paisagens, pelo aperto do vagão, raros são os que percebem que há paciência no outro lado da locomoção. As cores continuam, dizem- me alguns que foram parceladas pelo mesmo tempo de uma copa. Do mundo, não sei dizer, o cinema sugere, mas da cidade que observa a degradação social eu sei. Do caminho pra casa, vejo pixação, olho mendigos, escuto plantar música da rua, compartilho sobrevivência do verde no asfalto, sinto vento, abraços de graça, cheiro a vida num lado só do nariz, fico doidão de caminhar sem rumo vendo histórias, entrelaçando lembranças. Olho pra trás e as cores ainda persistem indefinidas, continuo na brisa de viver o que não sei. Mesmo com pressa, não tenho tempo para decorar nomes de carros, não olho pra bares, desvio da vaidade, sou cego perante as vitrines. Antes de você abrir a boca, já deixo claro que não sou Marxista, odeio rótulos. Quero estar inerente de ser rotulado. Vejo o que não me obriga a sair de mim, vejo o belo. Sinto a cidade que já não cabe mais em mim. Sem pressa, com pressa, vai entender, como consegui ser assim: dúbio.

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