Toni Ventura, diretor brasileiro, com potencial, realizou uma obra prima contemporânea. Para o feito, usou como pano de fundo uma SP (São Paulo), conhecida por ser uma cidade diversa, onde estende em um mesmo varal: a pobreza e a riqueza. Pode parecer o mais do mesmo em  um dos caminhos do nosso cinema brasileiro, porém, em Estamos Juntos, seu novo filme, há uma Leandra Leal soberba do início ao fim, madura o suficiente para demonstrar na tela que se trata do seu melhor desempenho artístico.
Mas a história que ameaça trilhar o itinerário conhecido não demonstra força apenas com a presença da atriz, que diga se de passagem faz parte de um bolo recheado de cerejas. A mesma SP identificada na canção “Não existe amor em SP” do MC Criolo, ressurge na tela, através da trama de Venturi, que não dialoga diretamente com a canção, mas como o canto diz muito sobre a escassez do amor no concreto, a analogia pareceu válida.
A todo o momento o fio condutor é a própria cidade, que tantas vezes é cenário para a sucessão de egoísmo que persiste e aparece nas diferentes formas, refletindo no cruzamento de desinteresses, que por sua vez causam a ausência do coletivo. E assim, que Carmem – a personagem vivida por Leal sente-se e segue, sem ninguém: esmagada, fora de rumo, estrangeira. A única saída que encontra é se apegar ao lúdico, que de tanto servir, a distância cada vez mais das pessoas. 
Pessoas, que são as mais variadas, como SP é de fato. Desde o seu amigo Gay ou o jovem violinista argentino, passando pelo seu ambiente de trabalho, finalizando por uma comunidade humilde do bairro da Luz, na qual ministra palestras sobre cuidados na saúde. 
Sentimentos, indivíduos, objetos que encontram e desencontram a sua vida. Entre o retrato do drama pessoal de sua protagonista, o longa-metragem, consegue identificar algumas mazelas da nossa metrópole de uma forma nada caricata. 
Real e Seco. Juntando um bom roteiro com uma trilha sonora muito bem desenvolvida e excelentes atuações fazem de “Estamos Juntos” se não uma obra prima contemporânea, um filme muito competente, que merece ser visto, para pensarmos na contradição da nossa cidade, que apesar de estarmos tão perto de todos, continuamos sozinhos, olhando ela através de uma janela.
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