Degas Edgar
Descendo as escadas de todo santo dia, surgiu a mente, que poderia desviar o caminho de casa, no corredor do pensamento emergia vagarosamente se transformando legível, o símbolo da sua rapariga preferível. Julia, morena da cor do pecado, cabelos pretos e presos sempre quando vistos, rosto redondinho, boca pequenina, silueta de rainha, corpo que fazia a cabeça dos marmanjos entortar a cada passo dado. Já na calçada, a imagem no cenário mental indicava seu caminho. No logo dos seus 35 anos, pensava que podia fugir do previsível, pelo menos hoje, mas forte igual era a vontade do recuo. Seguia enganado a si mesmo, caminhando a frente quase sem querer. Segurava desde a descida da escada a vontade de mijar, não teve como, teve que parar, numa padaria, estacionou, era daqueles que tinha nojo de por a mão numa privada pública, mas não a boca dentro de uma pequena que aparecesse a sua frente e desse mole querendo algo a mais do que um simples pedido de isqueiro. Devidamente desapertado, estava pronto, apenas pela separação de uma calçada para outra, a sua válvula de escape estava lá dentro, sendo admirada por outros e quem sabe até iludindo outros iguais a ele, por terem sido contaminados pelo olhar refrescante da rapariga mais desejada de SP. Pensava ele, não há de existir outra galega igual a ela, poderiam ter outras milhares mais bonitas e mais gostosas, mas a morena da cor do pecado tinha ardor de repetição e aquele cheiro, pensava, bem na hora que atravessava aquela bendita rua, que mais perto que estava acarretava milhas de distância. Maldita ansiedade, que trouxe ao corpo de repente na descida da escada de todo santo dia. A um passo da porta, veio a lembrança da primeira vez que saiu com a galeguinha, sorriu timidamente já dentro do local, tendo a certeza que o acaso da escolha de outrora resultou no vicio de hoje. Viciado sou, teve vontade de gritar na frente dos rostos suados pelo maltrato da semana. Esperou, nunca gostou de sair com a rapariga depois de um transa anterior, mas nem isso o impedia de colocar a boca dentro, só não gostava, mas o fazia, o velho contemplamento de um homem que sabe que os 40 não tardou e o ameaça a cada noite. Olhar com olhar, foi assim que na descida da morena, o cruzamento aconteceu, sorrisos de ambos os lados, um de seus machos ali sentados esperando pela misera uma hora, ela não levava a serio o seu pensamento., ria com soberania., consicente do seu poder. O que a tinha transformado na melhor puta da cidade foi que o serviço era feito com vontade, o prazer ocorria sem mentiras. Em uma conversa pós-orgasmo houve a confissão: – gosto disso porque nasci para dar o prazer não encontrado no horário comercial, sou competente, não há coisa melhor que imagino estar fazendo agora. Sumiu, o inicio do programa sempre ocorria assim, com essa pouca palavra que não significava nada. Antes de ele fazer o pagamento, ela anotou no caderninho do seu local de trabalho mais um incluido para sua grande lista de clientes de um dia. Já não importava, sem estar a caminho do seu lar, respirava saudosismo puro. Pré-liminar finalizada, agora, era subir a escada de isolados dias, quase raros, hoje em dia, é assim, mas as saudades carnais são maiores que a obrigação disfarçada na rotina de passar o bilhete único e se trancafiar feito gado como se fosse para um matadouro, pra chegar dentro de casa e morrer na frente da televisão, sem dialogo com a pessoa que escolheu dividir a cama de casal dada pela tia. Ela, oposto, consciente da sua ferramenta, sendo coberta por um baby doll roxo. Não era funkeira e muito menos bbb, mas deixava fãs rastejando pelas esquinas da cidade, se não era global pra receber cartinha dos admiradores, trocava o papel, pelas camisinhas preenchidas por instantes de felicidade, todas jogadas nos sacos de lixos deixadas a frente do local, que o lixeiro recolhia pela madrugada de toda quinta-feira. De porta fechada – já prontos pro abate, fio dental escondendo marcas do verão, foi tirado o baby dool, sem conversa e nem pressa, os corpos foram naturalmente deitando na cama velha, nus, enquanto não desse uma hora, o mundo lá fora não existia, a volta pra casa era inimaginável, nus, por cima dela, com o gesto feito pela inclinação da boca frente aos seios redondinhos, mostrou a língua e também sem pressa encontrou uma descida num caminho incansável rumo ao seu vicio, charmosa, gemia moderadamente, profissionalmente, sabia, dar prazer e senti-lo ao mesmo tempo, racionalmente se entregava, ia ao paraíso, beirando a liberdade, mostrando a luz do seu olhar sobre o dele, mas, de pirraça, é só mesmo, voltava para o quarto velho, fingido um distanciamento passageiro, depois o itinerário bocal retomava, e o script dela se desapegava. Marca do verão, corpo em abundância, agia se mexia e pela boca dela assumia o vicio dele e desapareceram para fora deles. Delicadamente, houve além de bocas e sussurros. O delicado nem sempre significou ameno ou sem graça. Do minúsculo buraco da fechadura de dentro saia uma quentura prolongada por uma incrível sintonia de demanda e oferta. Horas a mil, distancias infinitas que foram barrados pelo prazo de uma hora. Satisfeito, satisfeita. Duas camisinhas para serem jogadas no saco de lixo pro lixeiro pegar quinta feira de madrugada. Uma ducha rapidinha, uma briga noutro quarto, quem liga, pensou, depois de uma hora repleta de felicidade. Profissional fazendo o cliente feliz. Que voltará com certeza, em toda esquina, estacionado na padaria, tem cinco de seis lá dentro, que voltam para vê-la. É sempre assim, contente pela fama, esbaldando praticidade nas ações, coerência na escolha e sucesso na forma. A noite apenas começou. Descendo a escada, tem a noção que uma descida significa outra subida, entre descidas e subidas, sua temática de trabalho enobrece aqueles maltratados pela semana. E ele, desce vivo, pra ser transparente embaixo. Enquanto já longe ele tira o bilhete do bolso, chega um cliente com um bolo de festa para comemorar com o pecado chamado morena que assopra a velinha. Ouve-se bem alto vindo de um transeunte que passava na rua: feliz dia da prostituta.
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