Observação: Esse texto não tem nenhum compromisso com a clareza, abstinência da realidade!
O agente interpretado pelo próprio Lourenço Mutarelli aguarda a Voz (Simone Spodaleri – mais linda do que nunca, talvez nunca tão linda assim) na rodoviária. Ele – o agente – descobriu a bela Voz, e agora vai mostra – lá para o maestro. Quando o ônibus estaciona, ele conta 10 pessoas que desceram antes dela = a Voz.     
Entre os dois. Ocorre um abraço.
A voz mais linda do que nunca… Silenciosa. Aguarda.
Juntos, seguem, a caminho da casa do agente.
A vida é uma doença na cabeça do agente, já que sua esposa (Beth Gofman) tem amante, mais de um, pensa ele, a vida é uma doença.
Ao chegar sem bater, ela grita, toda a predominância machista se inverteu, está nela, a esposa do agente, que grita e têm amantes, mais de um. Porém, o requinte feminino a visita (ele nunca some, sempre aparece nas horas mais inconvenientes) quando desconfia que seu marido – o agente está comendo a Voz.
Ele = o agente é assexuado, ela- a esposa não sabe, mas tarde a Voz iria saber, que ele- o agente é assexuado.
Eles fazem um acordo, ele = o agente e a voz. Agora, é selado um compromisso, um objetivo – não sair do quarto – sumir da vida – para de existir para os outros, porque não aparece.
Com as economias que ajuntou, o dinheiro do cigarro ele garante. Já é bastante, o cigarro é pra saber, seguir. ADIante! Sem viver na frente da multidão, ficando sós.
O agente, que é ele, prevê o destino através das fotos degradadas nas embalagens de um cigarro qualquer.
Ele seguiu com essa tentadora teoria até esse exato momento de sua vida. Entenda a analogia, fotos de cigarro são quartas de tarô. Abre o espaço, o Natimorto está há chegar, que significa a morte prematura, bebê entubado, a morte sem nascer, entende o privilégio? Nascer e não passar por todos os embates da vida? Natimorto!!!!
Para o agente é o sublime e adiar as decepções que a vida traz e antecipar a morte sem crescer.
Entre as imagens recorrentes da supremacia da sua esposa e as conversas entre ele e a Voz , as cenas – vem, vai, vão e volta.  Vem, vai, vão e volta, vem, vai, vão e volta!
Só – sabe quem estava no cinema nessa noite. É viu as cenas, que vem, vai vão e volta!
Uma parte me impressiona – foi quando ele = o agente fala com ela = a voz, refletida no espelho, parecendo à fumaça do cigarro. Uma fumaça!!
Querer parar a vida!
Enquanto ele segue querendo parar a vida, a tornar ela insuficiente para se viver, acreditando na pureza do cigarro, que é capaz de prever a vida de acordo com cada imagem que vem na parte de traz do maço. A VIDA, presa no quarto, sem luz, com a variação da iluminação que combina com o tapete exposto no centro que lembra um tarô. Previsível, legal, o que é? Não sei! Abstinência de se viver.
A voz mais linda do que nunca e o retrato da esperança, a vontade de ver o sentido no redor, sair do quarto, fugir, ir à contramão da caverna do Platão, em vez de acreditar no visto ruim do agente, tem vontade de sofrimento, fome de AR.
Porém, mantêm aquela parte no corpo de medo do medo de errar.
Em uma parte da conversa dos dois, o narrador diz +ou- assim (não me lembro muito bem das palavras faladas):
– Ela que dá passos extensos que sempre dão no mesmo lugar.
 Veja: o agente acredita que o ser humano é o câncer do mundo e a vida também é uma doença. Conseqüentemente, sem não houvesse os humanos, a vida seria pura, porque não seria contaminada por nós, que somos o câncer do mundo.
Mas a gente não passa de cachorro que morde a vida, deixando cicatrizes nela, gerando o sentimento da vingança na própria, que numa tarde de domingo qualquer, te mata vagarosamente na frente da TV, te enlatando nas risadas superficiais que é de dentro do tubo pra fora da sala.
A vingança da vida de outrora.
Quando crianças, temos medo do monstro, achamos que nunca vamos cair no poço do monstro, porque estamos protegidos nas asas dos pais, mas, mero engano banal, todos caímos e dentro, vemos a água transparente refletir nosso rosto, portanto, dentro do poço, tudo se explica, a infância passeia e não volta mais e a gente descobre que o mostro que tanto falavam pra assustar não passa da gente. É foda!
Nesse momento em diante, sabemos que o monstro é a gente. É foda!
Debilitado, ele vê que não se pode parar a vida, ela se vinga, não tem pra onde correr. EsTá todo mundo no mesmo barco. Discutir pra que?
Pouca coisa nos difere dos ratos, das baratas, das lesmas, todos, nos, fudemos, de dia, de tarde e noite, nas quatro estações, a lesma transa com outra lesma, a gente também.
A voz percebe: o ambiente fechou, escureceu. Porra como alguém pode ficar preso dentro de um quarto querendo ser mais que deus?
Não adianta o agente não vai sair desse quarto enquanto seu objetivo não for realizado.
E o maestro já conheceu a bela voz há tempos, pretende come-la, não é isso que todos fazem? – Diz o agente. A vagina acaba cedendo sempre, a vontade de penetração é grande. Vaidade, isso não passa de vaidade, tanto pra homem e pra mulher.
Logo, ela = a voz enxerga a realidade e fica sem acreditar na teoria dos cigarros – mãe dina. É nessa hora, que ela se esconde das imagens e compra uma cigarreira pra se incluir. Ou pelo menos tentar, não é?
Mas, Ela continua achando surpreendente a percepção, mas sabe que a futilidade é o verdadeiro sublime.
Descobre que o ser humano não pode surgir antes do destino. Ela recua, desvia, foge, mas do quarto ele não sai. Que parar a vida. Idiota!
Ele lê que o cigarro acaba com os dentes, pode causar câncer na boca, ele percebe que os grandes pensadores sofreram problemas com os dentes, porque nenhum deles sorriam na foto, nem Darwin, nem Nietzsche, Baudelaire muito menos, todos usavam dentadura.
Mas a gente não passa de cachorro que morde a vida, deixando cicatrizes nela, gerando o sentimento da vingança na própria, que numa tarde de domingo qualquer, te mata vagarosamente na frente da TV, te enlatando nas risadas superficiais que é de dentro do tubo pra fora da sala.
A voz volta com o rabo entre as pernas, o maestro fudeu com ela, a vida também pode usar alguém pra fuder com a gente.
Está vendo, o quanto o agente estava certo de querer parar a vida. Todos – instrumentos ingênuos – deixando ser levados pela vaidade.
Mas o destino aliado de imensidão incerta vinga, não deixa barato, o bicho pega. Sua mordida rapaz trará resultados apocalípticos.
Juntos outra vez, o agente e a voz silenciosa. Debilitado, pelo embate que enfrentou. Banhado por ela, ele pergunta o peso dela, ela responde, acaba. Os créditos sobem, sai do cinema, to aqui em casa escrevendo.
Sem dúvidas Natimorto é perturbador, fiquei sem fôlego do começo ao fim, um desafio que te leva a outra dimensão, puta experiência cinematográfica, comprei o livro. Começo ler o quanto antes. Parabéns a todos envolvidos nessa obra que conduz o público na direção das fronteiras que separam a sanidade da loucura.
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