De longe: Douglas parece um garoto como esses que você enxerga na esquina da sua rua, mas chegando perto você logo se engana: o menino que hoje completará 18 anos, não tinha nada parecido com ninguém. Ele tinha a sua particularidade, o seu mundo próprio.
Ao seu nascimento, dia 22 de outubro de 1984, até hoje, a mesma data, só que em 1999, um problema vinha persistindo na sua vida e conseqüentemente o atrapalhando. Douglas, moreno, olhos castanhos, nariz avantajado, cabelos pretos e fã declarado de Metallica, era tímido e sofria com isso por não ter muitos amigos e dos poucos que tinha, mal sabia puxar um assunto que não fosse sobre Rock “N” Roll, o que diretamente os deixavam ligeiramente entediados, porque naquela época, o pagode dominava as paradas de sucesso, principalmente onde morava – Arthur Alvin. Dos seus poucos amigos, todos gostavam de “Os Travessos”, que naquele ano emplacava sucessos e deixava a meninada arrepiada ao ouvir os hits “Sorria que eu estou te filmando e Meu Querubim”. Por isso, os garotos se achavam no direito e na obrigação de escutá-los, para conseguir morder um pedaço do bolo ou da maça.  Se é que vocês me entendem.
O cumulo da sua timidez se deu quando ainda aos onze anos de idade sua mãe o contráriou fazendo uma festa e chamando toda vizinhança, todos aqueles que o batiam e deixavam-no pra ser o último escolhido no jogo de futebol.  Para o garoto, tava na cara o interesse dos seus “falsos amigos” em aparecerem na sua casa por causa da festa, do bolo e dos refrigerantes, os convidados que ali estivessem pouco se importariam com Douglas. O que parecia de começo ser medo era receio mesmo da vizinhança inteira incluindo os adultos de invadirem seu espaço, de terem na figura dele o protagonista do evento, o garoto chegou a tentar se acostumar com a idéia, só que minutos prestes a cortar o bolo, teve um impulso e se escondeu no armário da mãe. Por oras, os convidados o procurarão, sem hesito. Somente, seu melhor amigo, Arthur, o único com quem conseguia manter uma conversa linear, o achou, no entanto, por ter enxergado na face do amigo um mal estar danado, deixou passar, fingiu que não encontrará. Daquele momento em diante, Douglas, sabia que com esse podia contar.
Com o emprego novo da mãe de enfermeira, havia conseguido comprar um computador, que montará na Santa Ifigênia no mesmo sábado com o seu Tio que pegou o dinheiro com a mãe.  Não entendia sobre informática, mas seu tio dizia que a máquina que montou era uma das melhores da época. Teve que esperar uma semana até o tio lhe visitar e cadastrar o nome dele no provedor do IG para que começasse a usar a internet. Ainda rede discada na época.
Nos primeiros minutos de uso, seu tio sentava ao seu lado para ensiná-lo. Já à noite e coberto de tédio pelo ensinamento, o garoto começará achar a internet uma chatice, já que seu tio só mostrará coisas que não faziam parte do seu cotidiano. Como sua mãe trabalharia no turno noturno poderia ficar sem receios acordado na madrugada, gostava de assistir os filmes que passava na Rede Globo, já que o computador também ficava na sala, entre um diálogo e outro ouvia saindo do computador um barulho estranho e até engraçando, no começo pouco se importou, mas depois o barulho era constante, no intervalo do filme, se dirigiu ao tio pra perguntar:

– Tio, que barulho é esse? 
O Tio respondeu (mostrando desinteresse):
– É uma ferramenta, no qual eu converso com as pessoas.
(Incógnito) Douglas, perguntou de novo?
– Que?
O tio respondeu (um pouco bravo pela interrupção)
– O nome disso é ICQ, cada vez que faz um barulho é porque uma pessoa ta me respondendo ou que conversar comigo.
O Tio do garoto beirava aos 26 anos de idade, concursando e sem preocupações futuras, levava sua vida de uma forma na qual a sua Irma (a mãe de Douglas) não gostava, entre bebidas e diversão curtia os melhores anos de sua vida. Durante sete anos consecutivos, ele apareceu em sua casa no final de semana, às vezes chegava a dormir, quando tinha algo planejado com alguma garota só surgia pra almoçar no domingo.
Com um breve entusiasmo pela explicação do tio, o garoto foi dormir pensando que queria ter um ICQ. E assim, ocorreu, como ainda não trabalhava e seu amigo também não. Após a escola ambos foram a sua casa para mexer no computador. Arthur, não tinha computador, mas já havia mexido no do seu irmão mais velho que não morava mais com ele. Inclusive, nos finais que visitava o irmão passava horas na frente da tela, participando do bate papo da UOL, onde volta e meia no decorrer da semana falava isso pra Douglas, mas o mesmo nem ligava.
Foi aproximadamente, três horas e meia: o tempo em que demoraram ambos pra criarem sua conta no ICQ, com a numeração 78451120 – Douglas se mostrará frustrado por não ter ninguém cadastrado em sua conta. O oposto ocorria com Arthur, tendo o numero 79461132 permanecia ansioso em adicionar pessoas. Já que naquela região não era rotineiro alguém possuir computador, eles sabiam que se quisessem contatos e ainda mais – femininos teriam que entrar no bate papo da UOL .
É isso aconteceu, como Douglas era o dono do computador, ele teve a preferência em entrar primeiro, barrado na pagina na qual escolhe o nome para entrar na sala, os garotos se depararam com a mensagem (para entrar é preciso ter um nome). Sem pensar, Arthur falou:
Arthur:
– Coloca SPC (uma tosca homenagem ao grupo de pagode Só Pra Contrariar que também fazia sucesso na época)
Douglas (bravo respondeu):
– Não, Metallica/Zl – ICQ: 78451120
É foi exatamente esse Nick que ele digitou para entrar. Há dias Douglas demonstrava uma incrível técnica em digitar rápido somente com um dedo das mãos. Com apenas um dedo na tecla, teve sua primeira conversa online, que resultaria em um adicionamento:
(CONTINUA)
Anúncios