A dificil briga de vencer o medo

Alguém já dizia: sobreviver é fácil, viver que é difícil – argumento de bastante solidez que pode sim, ser usado para determinar a ciência do viver. Diante de tal pensamento, sinto-me a vontade de concluir um fato: todo ser humano sente, sentiu ou vai sentir algum tipo de medo, que acaba tendo uma ampliação maior e se transformando em problema real, podendo prejudicar diretamente as varias esferas do viver – tornando evidente uma barreira nunca alcançada do indivíduo contra o seu medo. A solução para essa questão vem com a paciência de ter no amanhecer de cada dia, a comprovação da diferença.
Já que todos são familiarizados com o tema (medo), dessa forma, o longa-metragem “O Discurso do Rei” é recomendando para todos, mesmos aqueles que devem estar contrários da minha afirmação e nesse exato momento devem estar pensando: “Eu sempre venci o medo de uma maneira bem fácil – Nunca tive grandes problemas com isso”. Para esses, só resta o seguinte discurso: – Então, bravo homem, sua vida é um tédio, para não dizer merda.
O medo é importante para evoluirmos como seres humanos – para determinados momentos de nossas vidas sabermos como foi gratificante a nossa transformação e a vitoria contra aquilo que nos restringia e oprimia.
Deparando-me com essa projeção, que concorrerá a 12 estatuetas do Oscar (incluído a de melhor produção do ano) e, é dirigido por Tom Hooper, um cineasta britânico, ainda desconhecido por aqui (Brasil), tive uma grata surpresa, bem diferente da expectativa gerada pelo meu imaginário, na minha mente se tratava de mais uma trama inglesa, na qual tinha diálogos chatos e tentava mostrar a superioridade de ser britânico.
Não que a história seja imparcial, o roteiro tem certas tendências fervorosas, segue em cada cena tentando humanizar a figura do rei George VI. Porém, existe uma regra em se fazer uma filmografia, que é uma linha tênue, entre o natural e o clichê. Quando bem realizado, a grosseria e os estereótipos são descartados, para dar passagem ao natural, (com perdão de Abbas Kiarostami) chegando a uma cópia fiel.
É quem não gosta de assistir uma produção baseada em fatos reais e sentir-se um transeunte do relato, pois, Hopper mostrou maturidade em retratar os anos de 1934,1935,1936 e 1939 – o tempo que ocorre o drama pessoal do pai da atual Rainha Elizabeth II.
Sinopse:
Parece que o medo e o trauma responsáveis pela gagueira de Berty (conhecido assim pelos íntimos) – George VI (Collin Firth)(o até então Duque de York), foi construído desde sua infância, por intermédio de uma relação complexa com o seu pai, o até então Rei George V.
Casado com Lady Elizabeth Bowes –Lyon (Helena Bonhan Carter), com quem tem duas filhas, o Duque segue sua vida colecionando fracassos em relação a sua oratória, refletindo em uma imagem degradante perante a família real e os súditos Ingleses.
Em uma quase “obsessão”, juntamente com sua esposa, na tentativa de sanar seu problema, procura os diversos fonoaudiólogos da região, no entanto, acaba se lamentando a cada nova consulta. Agravando ainda mais a gagueira.

Com o estado limitado e as opções de cura se evaporando, ele procura Lionel Logue (Geoffrey Rush) – veterano de guerra, dono de uma excelente dicção, que a ajudou no tratamento de casos semelhantes com o do rei.
O diferencial de Lionel é que ao contrário dos outros profissionais, ele cutuca a verdadeira ferida do problema, ou seja, em vez de se apegar a métodos e mitos ultrapassados, sua forma de trabalho é simples – primeiro: descubra seu medo, segundo: lute contra eles e terceiro: o vença.
Berty, sem a familiarização da temática de Logue, hesita no primeiro momento em ceder o tratamento, em contra partida, sente-se sobrecarregado e cobrado por sua posição real. Ainda mais, com a morte do seu pai e com a lacuna deixada por seu irmão Edward (Guy Pearce), que seria o sucessor do trono, mas por uma paixão fora dos padrões reais, abdicou-se do poder, o transformando no rei.
Só que o rei precisa discursar para seu povo e o agora George VI, sente-se mais acuado diante de tanta incerteza e por esse fato, Lionel reaparece, o ajudando em seu discurso decisivo, que anunciava a Inglaterra inimiga da Alemanha de Adolf Hitler. O inicio de uma nova guerra.

Considerações finais – A competência de Firth
Pode ser um relato de uma personalidade real, mas até as pessoas nobres transformados em mitos, sofre com suas dificuldades. É, o que o roteiro escrito por David Seidler mostra a cada trava de diálogo entre George VI e Lionel, a constante luta de se perder o medo, do enfrentamento direto com seus demônios. Acho impossível, alguém ver essa história e não se familiarizar com a figura acuada do rei em determinado momento da vida.
Como também acho improvável ao termino da projeção, não chegar ao senso comum de que a atuação de Colin Firth é antológica. Se ele, já tinha mostrando seu talento interpretado um professor gay tentando recomeçar a vida em “O direito de Amar”, dessa vez, ele chega ao ápice de um ator, conseguindo esboçar diferentes sentimentos, a cada fragmento do olhar, no tom de voz, no seu comportamento – em sua atuação enxerguei o medo, a raiva, o receio, a paciência, o afeto, a gratidão, o comprometimento, a nobreza, a timidez, o desequilíbrio, o equilíbrio, a dúvida, o amor e a coragem.
Quero que fique bem claro, não estou sendo efusivo, digo de uma só vez: sei que Javier Barden (em relação o grande concorrente dele na corrida do Oscar a melhor ator) imortalizou o seu novo personagem, não assisti seu novo filme, mas pelos excelentes comentários, sei da competência do seu papel, porém, Firth há muito tempo vem colecionando trabalhos bem sucedidos e o seu Oscar já passou do tempo. Nesse trabalho, ele merece ser colocado, num patamar de excelência a nível de Al Pacino, Robert de Niro, Brad Pitt, Sean Penn e Jack Nicholson.
Continuando a tratar do seu trabalho, destaco duas cenas, nas quais o espectador certamente sentirá um breve arrepio no corpo, por conta da sua novamente frisada: antológica atuação. Na primeira cena que senti a obrigação de citar nesse texto é a briga dele – o até então Duque contra o seu Irmão que tinha acabando de se tornar Rei – numa cena, onde seu irmão tira sarro de sua gagueira – percebe-se um sentimento de inferioridade passada por Firth que vai além do que se vê na tela, sendo que a sua reação ao ser reprimido por seu irmão mais velho foi sublime e consegue ultrapassar todos os limites da distância e chegar ao expectador.
Na segunda cena, dividindo a maestria com Geoffrey Rush, ocorre quase no final da película, (atenção spoiller) – acontece o esperado discurso, dentro de uma sala radiofônica, numa breve dramaticidade provocada pela trilha sonora ao fundo – com a ajuda de Rush – que rege o discurso do rei como um maestro, Firth tem colapsos recorrentes de nervosismo, cautela, segurança e paciência. Causando a emoção no publico. Nesse momento, se concretiza a vitoria do ser humano contra o trauma. O mais impressionante e na cena seguinte, depois do discurso, em que ocorre à transformação do personagem – de um cara cheio de questões, para um verdadeiro líder, que estava pronto para reinar.
Em certos momentos do filme tive a impressão de estar observando um quadro artístico, por conta da sutileza da fotografia de Danny Cohen, que conseguiu reproduzir a época.
Vou confessar, para isso vou pegar emprestadas algumas palavras do Ronaldo, se estiver pensando no jogador (o fenômeno), acertou, no qual escreveu nessa semana o seguinte sobre o programa esportivo Globo Esporte e Jogo Aberto. “O globo esporte do nada faz tudo, enquanto o JA do nada faz porra nenhuma” Mesmo, não tendo nada haver com o que estou escrevendo hoje, achei interessante a definição dele sobre o nada com zero de expectativa, que acabou surpreendendo-o positivamente e negativamente. Aplicando no meu caso, “O Discurso do Rei”, pensando no sentido da minha falta de expectativa – conseguiu fazer tudo. O relógio marca 02:52 hrs nesse exato momento, estamos no dia 28 de janeiro, em pleno final de janeiro e já afirmo que vou dormir feliz por ter assistindo um dos melhores filmes do ano.
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