Apresentação:
Mas um ano se foi e um novo surge, o povo renasce novamente, Junior permanece na mesma. Morador de rua desde os 5 anos – hoje, no primeiro dia do ano, sua face cansada mostra sua adolescência perdida, que ninguém encontra mais nas ruas. Com uma trajetória desconhecida, se tornou andarilho do centro antigo. Sem registro e sem nome verdadeiro, continua sem condições básicas, aquelas em que cedo aprendemos na escola ser direito civil de todos. Vive não se sabe como, drogado, solitário, foi batizado por seu companheiro de rua, “Zé do Buraco” que o apelidou assim por ter surgindo na rua cedo – pequeno.
Intenção:
Sua festa de réveillon aconteceu numa viela, usando crack, brisando sozinho a brisa do asfalto sem ninguém pra reprimir, não era invisível na multidão, se tornou por minutos o dono da cidade. Amanheceu, sujo, perdido, reprimido pelos poucos que estavam no local, sendo alvo de medo, de ofensa por gente pobre que nem ele. Na padaria ouviu não pela água pedida, nesse momento, viu na televisão que seria a posse do novo Presidente da República, sem saber por que, quis ver essa cerimônia, era novidade, nem sabia que cerimônia ou posse existia, só sabia o nome da presidenta, porque viu o local onde mora, infestado de santinhos de Dilma Roussef … Em um mundo onde a informação pula no seu colo, ele não sabia de quase nada, só sabia roubar pra sobreviver e mantinha o hobby do crack pra poder sonhar. Nunca votou e provavelmente nunca votará. Os minutos passam e Junior não conseguiu fazer a correria para ver a posse, a cidade estava quase solitária, havia alguns estabelecimentos abertos e todos que tinham televisão, expulsavam-no com o mesmo discurso dizendo assim: – sai daqui moleque não tem comida pra você. Partindo, Junior ouvia dos indivíduos que acabará de lhe expulsar as seguintes opiniões “políticas” sobre o discurso transmitido na televisão: – Essa coisa do pré-sal deve ter mutreta é coisa pra esses corruptos ganharem dinheiro – Quero ver essa Dilma acabar com os problemas do Brasil. Até, para uma mente sem conhecimento como a do menino, a sociedade no qual era excluído passava por uma forte crise de incoerência – ele não sabia o significado da palavra incoerência, mas tinha na mente que não fazia sentido tudo aquilo, pessoas maltratarem ele e seus iguais e ainda sim cobrar melhorias para um político. Ele achava estranho, a população se achar politizada justamente nessas épocas onde a política querendo ou não era o centro das atenções de todos os brasileiros e, contrapartida , durante o ano inteiro esse mesmo povo se mantinha distante diante dos acontecimentos políticos ocorridos, pensando em outras coisas. É claro que ele não pensou com essas palavras, mas sabia disso, porque ouvia muito a conversa dos outros e sempre testemunhava os mesmos assuntos: resultado da semana do campeonato brasileiro – quem vai sair do big brother e da fazenda – quem matou quem na novela das 8. Assim, seguiu ele de bar em bar, tentando ver a tal posse, ainda não sabia por que queria ver, mas tinha a certeza que pouca coisa mudaria em sua situação. Nem número ele era, fazia parte de uma estatística pública e acadêmica. Pra poder dormir em um local “um pouco” descente, tinha que chegar à porta do albergue de manha para ter moradia no dia seguinte. Enquanto isso, em Brasília, Dilma falava de bons resultados e um país emergente rumo à perfeição, Júnior queria crescer, trabalhar, parar de roubar, melhorar também – mas não tinha espaço, sofria com preconceito humano. Cadê a melhora? – palavras ditas por ele quando finalmente conseguiu enxergar de longe na televisão de uma sapataria aberta, Dilma chorando e enaltecendo a evolução brasileira. Não demorou muito pro sapateiro lhe expulsar da porta. Caminhando rumo à praça da sé, encostou-se à parede onde dorme e viu por debaixo de sua coberta um pedaço de um santinho perdido e amarelado pelo tempo, onde havia a imagem da nova presidenta, de repente veio à tona a lembrança do motivo a qual quis de qualquer jeito conferir a posse presidencial, foi o Zé do buraco que havia falado há  quatro meses atrás que aquela mulher do papel poderia fazer história no Brasil, se tornando a primeira mulher a comandar o país, queria presenciar a o fato histórico, fazer parte de algo pela primeira vez em sua história, porém, sabia que não fazia parte do todo e nunca fará – na verdade sem ter a consciência, teve uma intuição que nada mudaria quando viu que ao lado da nova Presidenta José Sarney presidindo a cerimônia e presente no mesmo ambiente  personas como Fernando Collor e José Genoino. Ao dormir concluiu que a política brasileira caminha e vai caminhar de acordo com a inércia capitalista e dentro desse cenário tupiniquim o preconceito vigora e o sentimento do individualismo está cada vez mais presente no asfalto. Mas, claro que não pensou com essas palavras, entretanto sabia disso. 
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