O homem Orelhão
Sabe-se que é um homem maltratado pela vida. Sabe-se só. Surge da onde? Porque ele senta? Senta-se no mesmo canto todo dia, final de semana ta la. De onde ele vem? Sabe-se que a vida lhe maltratou, mas como? Pela face que esconde, sabe-se. O orelhão é a sua face. O homem orelhão atravessa a avenida paulista e senta no mesmo canto de sempre. Do lado esquerdo do canto. Tênis branco, e sei que não se veste feio. Mas por esconder a face, ele se sente mal. Ninguém nota, a vida é corrida. As pessoas se passam e não se olham, porque a vida é metrópole. E ele continua la, sentado vendo as pessoas passarem, tendo sua vida parada. Porque ele senta? Ninguém nota.
Ei, eu sou homem de chegar e perguntar, qual é a tua homem orelhão? O que tu procura?
 É Certamente, ele não responderá. Não ta la pra responder.
Sem o proceder, só pode se esconder.
Concretização de uma vida parada no meio de tantas outras corridas que do discurso desconhecem solidariedade, com o poder nas mãos não param por um minuto sequer. O que, tu aflige homem orelhão? Não.
Horário de almoço sagrado. Homem Orelhão que se foda. Se precisar uso seu novo rosto para fins pessoais sem lhe perguntar.
Homem Orelhão não fala. Ou fala? Alguém ouve? Tem chance?  Com a mesma roupa e o mesmo tênis figura na sua própria cidade, sem poder. Como um orelhão comum. É usado, destruído, arrumado, enganado, usado de álbum retrato pra sacanagem e não morre. Porque a cidade.
A metrópole um dia vai precisar.  
Da sua humildade.
Homem Orelhão parado não se move.
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