A vizinha (Hamsayeh): filme de origem canadense e iraniano, dirigido pela estreante: Naghmeh Shirkhan, integra a 34° edição do Festival de São Paulo de 2010.
O interessante é que todos os personagens inseridos na tramas são interpretados por pessoas comuns, que não são atores, inclusive a filha e mãe, são filhas é mães na vida real.
Sinopse:
Por meio de uma gravação modesta: vemos os passos de uma mulher de origem iraniana, sabemos disso, pelo véu usado e pelo ambiente em que ela caminha, é Teerã, Irã.
Nos primeiros minutos corridos da película, pouco se houve, o silêncio predomina nas cenas.
O telefone toca: são ditas as primeiras palavras de Shirin (Azita Sahebjam). Aflita, sozinha acompanhada de um homem na cama, ela sai.
Shirin é uma imigrante iraniana, mora no Canadá, professora de dança, sozinha, longe do seu mundo. Dentro do seu apartamento o mais perto que consegue chegar de sua cultura é vendo os vídeos de sua avó.
Certo dia, pela janela ela observa pela primeira vez Leila (Tara Nazemi) outra imigrante iraniana que entra no carro de um amigo.

                             Shirin tentando estabelecer um laço amigável com Leila 

Leila é a vizinha de porta de Shirin. No corredor do condomínio a professora de dança tenta estabelecer um relacionamento amigável com a nova vizinha, porém, a tentativa e frustrada pela falta de interesse da vizinha em conversar.
A protagonista tem na dança a sua válvula de escape, o momento é único, além de se reencontrar com uma cultura distante, ela atinge a tranqüilidade que o seu rosto anseia e grita a todo instante.
Não demora muito, para ela descobrir a existência da filha de Leila – Parisa (Parisa Wahedi), uma criança de cinco anos, que permanece sozinha no apartamento, enquanto a mãe se encontra com amigos.
A problemática é essa: a mãe de Parisa é jovem e nota-se que a maturidade teve que interromper a sua juventude, por conta de conceder uma filha cedo. A vontade de viver ainda encontra-se em seu espírito, por essa razão as tardes são destinadas para passeios em Bares, Patinações no gelo. As funções se distorcem, enquanto a filha lava a louça, ela brinca de ser menina na pista de gelo.

                                         Shirin fazendo o papel de Mãe para Parisa 

A vida proporciona mudanças a todo instante, o que era travado a não acontecer, enfim se sucede, Leila se rende as boas intenções de sua vizinha, concede um dia de sua filha junto com Shirin, onde apresenta para menina o seu mundo: a academia de dança.
Sempre só, a menina mostra dificuldades em socializar-se com as outras meninas. Naquele instante, apesar dos problemas passados: A vizinha mantém um papel que deveria ser de sua mãe ausente.
Duas mulheres é uma menina. Shirin enxerga em Parisa a filha que o mundo não lhe deu, por meio dela, sente vontade se restabelecer com sua mãe distante e de outro mundo em todos os sentidos. Leila, não quer o rotulo de mãe, sua intenção é preencher sua vida de outra forma, bem longe daquele apartamento. Parisa, não consegue chamar sua mãe de mãe, chama de Leila, triste e só, procura entender quem é o homem que vive saindo ao lado da mãe, começa descobrir cedo a maturidade que precisa ter por ser filha da mãe que tem.

                                               Leila redescobrindo a esperança

Considerações finais:
O silêncio é trabalho constante nessa trama. Poucas vezes, presenciei uma obra tão delicada que sabe tratar do silêncio da forma que trata, junto com uma trilha sonora que se insere de maneira precisa e resulta no dinamismo de cenas que interagem entre elas como se fossem partes de um poema, que nesse caso se chama Vida.
Sincero, simples, e artístico. Para uma estréia, Naghmeh Shirkhan orquestra sua visão de mundo por meio do seu filme. Discuti relações humanas, conflitos de mãe e filhos, o fato da migração, o vazio da solidão e finaliza seu argumento mostrando a esperança.
Ela não poupou os detalhes nas cenas, nas metáforas. Em tomadas lindas nos ensina a gostar mais e mais de cinema, numa fotografia artística mostra que o mundo da protagonista está voando por cima dela.
Na seção que eu assisti a diretora estava presente, ao final do longa-metragem ela sintetizou o o motivo que a fez realizar essa obra. Suas palavras foram: Eu já vi, eu já presenciei e ainda guardo curiosidade sobre isso, eu gosto disso. Pronto, não precisa teorizar muito, é isso, gostar, viver, ter curiosidade. Cinema é isso. Obrigado Shirkhan por ter presenteado-me com determinada obra de arte, desde “Virgens Suicidas e Encontros e Desencontros”, ambos de Sofia Coppola, que eu não vi uma reprodução tão honesta com o silêncio que é a vida. 
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