Tédio, cansaço e água. O dia passa e o espaço é esse, o tempo não, ele ainda vai se formar. E assim diariamente. Nada de som. Silêncio predominante há não ser pelo barulho do teclado que das 09 h as 17 h continua no mesmo ruído e nunca se cansa. Além disso, é vazio. Imensidão. Nada de vozes. E, eu canso, de viver uma vida que não é minha. E, parado ver o relógio rodar e desse modo à cidade acende e apaga, e eu envelheço na rotina. Há como seria bom, se nada disso fosse real, se estivesse diante de um simulacro mal elaborado. Na verdade isso é um simulacro, duradouro, mais essa vida não é minha. Então, o que é? Representação do espaço. Portanto, fica combinado, amanha acordo, é resolvo mudar, mando meu chefe tomar no cú, pego o retrato e coloco na mochila e assim posso embora, desempregado, mais com a alma arejada. Na verdade eu não posso, fazer isso não é prudente, por conta das contas, que ainda não possuem piedade, e ela já morreu faz tempo, atualmente, é coisa de gente fraca. Que quem há tem é visto como fraco e sonhador. Por falar em sonho, hoje, sonhei com a cidade que eu deveria morar, não essa, na qual representa algo que não sou. Lá, é longe, o que de imediato me atrai, aqui, é espaço, vazio, predominante. Eu deveria realmente falar um monte de palavrões para o homem que paga meu salário, poderia também, quebrar todos os meus cartões de créditos, rasgar meu RG, CPF. Mais tem um, porém, é a nota paulista como ficaria? Há foda-se, essa nota e qualquer outra nota. Sendo assim me tornaria um indigente, viveria de poesia e de restos de comida em algum restaurante luxuoso e freqüentado pela alta sociedade de algum lugar. Entretanto, as contas não têm piedade. Ninguém tem. Você tem? Aposto que quando olha para um mendigo na rua, acha que ele se encontra naquela situação por que foi, ou é um péssimo ser humano, tu acredita que aquela trajetória está associada a vícios e tudo mais. Em todavia, você finaliza seu estúpido pensamento achando que a vida lhe deu diversas oportunidades, mas ele não soube aproveitar, por conta dos vícios. Mas eu lhe pergunto, que vícios? Então, você olhará rapidamente e logo retornará a sua conversa que certamente estará ligada diretamente ou indiretamente com alguma espécie de consumo. É se o mendigo se aproximar de você, coitado, você desviara dele, como se estivesse em perigo numa floresta. Mas eu sei que depois a conversa continuará certamente. E Rindo atóa você já estará a duas quadras acima. Eu estarei, aqui, no silêncio de vozes, barulho constante, teclado trabalhando, operador automático. No caminho do trabalho, peguei a condução lotada. Vejo pessoas diariamente, não falam nada, parecem robôs, como no filme, Eu Robô. Na condução lotada, todos fazem o mesmo gesto, quando não estão com caras amarradas, permanecem com as faces cansadas. Todos vivendo uma vida que não é á deles. Todos morando aonde não deveriam morar. Seria do caralho: se todos queimassem seus documentos, e juntos, virássemos, uma sociedade de indigentes. Partiríamos para o sul, em direção de algum restaurante luxuoso freqüentado pela alta sociedade local. Se chegássemos lá, esperaríamos feito cachorro sem dono pelos restos prometidos. Passado meia hora esperada, enxergaríamos um garçom magricela surgindo do nada, carregando um balde gigante e estampando um sorriso satisfeito, como se os seus olhos estivessem certos de que estava fazendo uma bondade. O resto estava no balde, era fruto da má vontade de comer. Os clientes já estavam satisfeitos. Nós, não. O que me falta, é o coletivo, não precisa assistir televisão pra saber disso, que as coisas só acontecem quando o coletivo aparece. Ao contrário, o trabalho é árduo, incógnito. Sozinho, agente não agüenta e tudo gira em torno de todos, ninguém percebe, quer dizer, às vezes numa fila qualquer alguém reclama da falta de mão de obra no caixa, que reflete diretamente na demora da fila, que não tem mão de obra suficiente para atender a demanda. O que na verdade esse sentimento rápido de precisar de outras pessoas soa interesse individual. Interesse próprio. Herança do capitalismo selvagem, onde semanalmente nos matamos no mercado intangível de trabalho e durante o final de semana, pedimos à bença. No entanto, durante nosso espaço continuamos, com os mesmos preconceitos, contra o homossexual, a prostituta, o ladrão e contra todos os chamados excluídos da sociedade. A doutrina é o seguinte, eles que se modifiquem e torne-se humanos respeitosos, como nós, do nosso mundo, do rosto cansado e amarrado. É a semana se re-inicia, tudo de novo, o mesmo barulho, o mesmo silêncio. Final de semana retorna e participamos da procissão da igreja, doamos o dizimo, apertamos na mão do próximo, mas no caminho pra casa falamos mal do vizinho e de quem freqüentou o culto, a missa, o templo. Ninguém vai querer fugir comigo. Mas ninguém diz sim pra nota paulista. O silêncio permanece. Imensidão do que? Intangível. Cadê ele? O mercado de trabalho. Como pensar em fugir, se o materialismo cresce: a indústria automobilística cresce, a china importa cada vez mais, o mercado alcoólico fecha o balancete mensal com grande lucro, tudo é tangível, vem do intangível, tudo é momento, imediato, fatos que evaporam. A falsa felicidade comprada, parcelada, promessa de face amarrada e cansada. É eu permaneço aqui, cansado, bebendo só água, não tem café, digito coisas que eu não gosto no silêncio de vozes, espera um pouco, o telefone tocou, preciso atender.
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