Os Bons Companheiros
Luxuosa realidade fictícia se misturado com a triste realidade real
Viver pouco como um Rei ou muito como um Zé, frase do trecho da letra Vida Loka Parte II do grupo de rap “Racionais Mcs”. Bom, se alguém costuma acompanhar este espaço, estará se perguntando. Porra, o que a letra dos racionais tem haver com a obra prima de Scorsese? Na verdade têm tudo haver, essas palavras simbolizam o mundo criminoso, no seu sentido mais social.
Ou seja, ninguém nasce um criminoso, em algum determinado momento, o indivíduo é reflexo das inúmeras distorções de valores que o cercam em seu cotidiano. Funciona da seguinte maneira: A sociedade reprime, faz descaso, não vê soluções cabíveis na modificação do ser humano que comete erros ilícitos perante a lei determinante de algum país. Em contrapartida, no lado de fora do moralismo: a rua, os valores foram distorcidos, ninguém espera mais pelo trabalho árduo em longo prazo, o imediatismo invadiu todos os lares, mas na rua encostou e não dá aviso prévio da sua saída.
Quando se é jovem, de um lado você tem a repressão e o autoritarismo da sociedade conservadora que permanece com um discurso dúbio a controvérsias de tudo. Além de ser integrante de um mundo egoísta, onde o que denomina poder é o capital, gerando sempre o interesse em dar ouvidos para a conversa do outro lado: no qual o caminho pelo poder tem um caminho certo, estreito e curto.
Sem educação básica, sem orientação familiar correta, não adianta você questionar dizendo para tal pessoa não entrar no mundo do crime por conta do medo da repressão, e assim, terminar prevendo que esse seja um caminho sem benefícios. O que é uma notória mentira. Do outro lado, nas escolas públicas, nas esquinas, nas vielas, seja no Brasil ou no exterior, ou nos anos 70 ou nos anos 2000, um criminoso tem status comparável a uma celebridade global e porque não dizer hollywoodiana.
Agora, imagine-se no seguinte aspecto e na determinada ótica: Você é um garoto pobre, sem orientação escolar e familiar, receptivo das mais diferentes plataformas de publicidade veiculadas na televisão e nos Shopping Center, diariamente, isso porque estou sendo bonzinho em citar somente dois exemplos, as propagadas se popularizam em todos os lugares, acho que você a enxerga até mesmo quando está usando o banheiro, num ambiente fechado. O cenário é esse, paralelo a ele, você se depara com criminosos idolatrados pela sociedade local, possuidores de todos os objetos no qual é estimulado a comprar anualmente. Portanto, é inevitável que uma pergunta não surja no seu consciente: Porque as coisas são, como são? Porque preciso estudar, se eles os bandidos conseguem tudo que querem sem ter pisado o pé na escola? Depois, você com poucos anos de existência precisa decidir algo que mudará o seu futuro para sempre. Viver Muito como um Zé, ou pouco como um Rei?
Adentramos no universo italiano:
Pois é, Scorsese em 1990 abordava esse assunto. Claro, que o seu cenário não era a favela. O seu longa metragem teve como locação: a cidade de Brooklin, é o período escolhido para o registro foi em 1955 até 1980, os personagens retratos são os Mafiosos, Gângster e os criminosos locais.
Uma das primeiras falas que surgem no filme é: “Até onde posso me lembrar, sempre quis ser um gângster”, dita por Henry Hill (Ray Liotta), ainda jovem.
Um dos fatos que comprovam o meu pensamento acima. E olha que essa história é baseada em fatos reais.
Quando pequeno Henry sempre obteve a vontade de ser um gangster, por observar a comoção que havia por parte das pessoas que moravam na cidade.
Com o forte crescimento do mercado cinematográfico nos Estados Unidos e glamour de Hollywood invadindo os lares americanos, aquela realidade distorcida vivida por aquele garoto era o que mais aparentava ser equivalente aos prestígios hollywoodianos.
Sendo assim, ele, como qualquer aprendiz, iniciou por baixo (limite mínimo da hierarquia), no intuito de alcançar os seus objetivos futuros. Tornou-se membro da sua própria Hollywood, ainda não era a estrela principal, mas servia de consolo ser respeitado pelos membros de sua faixa etária.
Sua iniciação ao crime se deu como um garoto de recado, ele fazia pequenos favores para os nomeados mafiosos locais.
Conheceu e ganhou à aprovação do chefe local, Paul Cícero (Paul Sorvino), um membro de fato da máfia italiana e que coordena o crime da cidade.
Nessa realidade, a vida girou, os anos se foram é a idade chegou, Ray Liotta em cena.
                                     Henry adolescente (esquerda) ganhando elogio de Jimmy ( direita)
Jimmy The Gent” Conway (Robert De Niro),um criminoso respeitado e antiga admiração sua de infância, se torna seu aliado, junto com Tommy DeVito (Joe Pesci), formaram uma espécie de grupo, que podia ser denominado como: “Os Bons Companheiros”, por serem inseparáveis.
O trio comanda diversas extrações (roubos) de dinheiro, tudo por intermédio ou autorização de Paul. A fama os atinge, gerando os benefícios e as regalias se tornam constantes, os amores breves são rotineiros.
Tudo parecia pacato, quando por intermédio de Tommy, que queria sair com uma judia que não se desgrudava de sua amiga, pediu um favor a Henry, para que fizesse o par com a tal amiga. O que ninguém esperava é que aquela dama, com traços fortes e senso de humor a prova, se tornaria a sua esposa.
A amiga se chama Karen (Lorraine Bracco) também judia, que se encantou com o poder regido por Hill. E a sua ilegalidade não a impediu, de se casarem.
Na narração, que antes era papel de Henry, a partir da inserção de Karen na trama, tornam-se dupla, com ela também na narração, os dois personagens intercalam o recurso narrativo.

                              Karen segurando uma arma na mão e demonstrando o ódio rodeado de amor
                  
O antigo deslumbramento de Karen se torna desconfiança e o ódio dentro dela só cresce, por ter sido inserida em um mundo libertino, onde o homem é o ser dominante e o criador das regras. As brigas se iniciam, é claro, como em qualquer segmento os problemas pessoais acabam afetando os negócios.
É isso acontece, Paul e Jimmy interferem na relação dos dois, expondo o que é o melhor a ser feito para que os negócios não se prejudiquem. É tudo questão de jogo, tempo para pensar, colocar a sua melhor cartada, é nessa que Henry e Jimmy se descuidam e por uso de uma má carta, são presos.
A mudança atmosférica:
Dentro da cadeia, a atmosfera é outra, o protagonista Hill sabe que os tempos estão mudando, que precisa de outra fonte de renda para manter a vida dos sonhos. O lance agora é vender drogas. Foi o que manteve seu bem estar financeiro dentro da prisão.
Quatros anos se passam, ele está livre, a sua mulher o recepciona. Num almoço de boas vindas, Paul o intima que saia dos negócios de drogas. O ameaça se caso houver um continuo nessa estória.
Na tradicional Máfia Italiana se envolver com o mercado narcotráfico representa desonra. Uma macha nas suas tradições.

                          Henry (no centro) mostrando o novo négocio para Tommy (esquerda) e Jimmy (direita)
                                                                        
Só que Henry transpira fama, seu DNA é movido por Rock “N” Roll, ele quer mais, sempre insaciável. De novo, com Tommy e Jimmy, se aliam, é conseguem manter os dois negócios, o tráfico e o roubo.
Trilha sonora nos talos, a história se desenvolvendo. É uma pequena palavra dita pelo personagem de Pesci, ainda no inicio do filme, ganha sentido e vida nos desdobramentos finais da narrativa.
É contar o fechamento dessa obra prima para quem não a conhece e nunca teve o privilégio de assistir é considerado crime pelos cinéfilos de plantão. Sendo que durante gloriosos 145 minutos, fui testemunha de uma aula de cinema, Scorsese é foda.
Uma aula chamada Cinema:
Agora é o seguinte: Coloco a mostra todas as qualidades que possam ser identificadas por alguém que goste realmente de cinema. O Resultado é esse: os atores numa conexão perfeita, a fotografia expondo planos próximos e resultando na nossa (expectador) própria aproximação no submundo retratado, a tonalidade das cores por intermédio da direção de arte representa algumas singularidades que ajudam compor o roteiro, uma trilha de peso (sentido bom da palavra) e uma direção brilhante de alguém brilhante, pronto, a obra prima é presente.

                       Scorsese (no centro) dirigindo Robert de Niro e Ray liotta (na esquerda) e Paul Sorvino (Na direita)
Não existe outro universo que me faça fazer conexões com o exterior iguais ao cinema. O cinema me mostrou que Henry é sua trupe, viveram intensamente todos os benefícios presentes, que fazem você ter os seus minutos, horas, anos de celebridade. Porém, como todo ciclo, tudo têm seu fim. Stop. Game Over. Agora é à hora de se viver como um bosta, Ter que pegar fila, ser avisado pelo paladar que a refeição presente é uma merda. Ser um Zé, só quero deixar bem claro que não existe nada demais em ser um Zé, mais normalmente (é isso não é generalização), eles, são distintos de mudança correta, deixam ser iludidos pela falsa felicidade, trajada de consumo. Até nessa faze, você aspira imediatismo, só que a única diferença que os difere aos ladrões e que eles fazem crediários monstruosos. E isso visto por intermédio da sétima arte é verdade ou a sua representação? No começo, pelo menos dessa obra, ela se identifica e fala: Baseada em fatos reais.
Titulo Original: Goodfellas
Ano: 1990
Gênero: Policial
Estúdio: Warner Bros
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, Baseado em livro de Nicholas Pileggi
Música: Pete Towshend
Fotografia: Michael Balhaus
Direção de Arte: Maher Ahmad
Edição: Thelma Schoonmaker e James Y. Kwei
Figurino: Richard Bruno
Elenco: Robert De Niro, Ray Liotta, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino, Frank Sivero, Tony Darrow, Frank Vicent, Frank DiLeo, Gina Mastrogiacomo, Catherine Scorsese, Samuel L. Jackson e Illeana Douglas

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