No quarto, eu, livre e preso, saio e entro, no quarto, eu, livre e preso, amo e odeio. Aqui eu vejo o mundo na tela do computador. Posso ser quem eu quiser ser, ontem mesmo, eu fui Jack White, amanha serei Bob Dylan, dentro daqui a morte não chega, fora daqui é neblina, caminho incerto.

Por meio da banda-larga me deparo com o longe, eles acham que o longe é aqui, eu acho que o longe é lá. Entro da cozinha, com um copo de leite, aperto o play, o mundo hoje é aqui. Paredes sujas por conta do tempo, lá fora o tempo é o mesmo. A mala que nunca foi usada permanece tampando uma parte da parede suja, os fios da conexão não deixam ninguém chegar perto da mala que nunca foi usada, objeto distante. Mundo distante, simulacro por segundos.

Minha rotina é a mesma, acordo de manha, enfrento a neblina, entro na escola, colegas presos, eu distante, longe distante. Aula de educação física, futebol, o último escolhido, pego no gol, todos presos, eu distante, longe demais daquele lugar, meu corpo preso, minha mente longe demais daquele lugar, fizeram o gol, reclamam, escuto ecos, não olho pra trás, toca o sinal, vou embora, entro no quarto.

A mulher que um dia foi minha mãe e que hoje não sei quem é, que conversar, não quero, bato a porta, aperto o play, hoje, sou Elvis, não morri. O relógio demonstra a hora passada, não fiz nada, lá fora a neblina continua, ela não vai. La longe, dizem ser verão, aqui nem sei o que é, todos envolvidos numa única diversão, o baile da cidade.

Não durmo, eles entram a noite, dizem que trabalham o dia inteiro é a noite que eles conectam, faço perguntas, obtenho respostas, eu sonho, lá fora é longe, lá fora neblina, ninguém passou da ponte, os que passaram nunca mais voltaram. O mundo aqui cheira desconhecido. O mundo aqui cheira mistério. Vejo um vídeo, Emily Haines de fundo, ela aparece, não Emily Haines, ela, sorrindo, subindo a rua das luzes, sorrindo, olhando pra trás, como quem faz um convite. O calendário marca três meses que ela mandou o vídeo, depois, nunca mais conectou, sinto saudades, não sei por que, sinto pontadas no coração, não sei por que, vejo o vídeo todos os dias.

Dia do baile, a cidade sorri, as pessoas daqui com o seu carnaval, da sua forma, todos daqui me olham como se fosse um estranho, ninguém sorri para a forma, só sabem sorrir para o abstrato. Hoje, pretendo atravessar a ponte, na hora do baile, ninguém vai perceber, nem mesmo a pessoa que um dia foi minha mãe, eu choro. Consigo passar, atravesso os fios, a mala vai ser usada pela primeira vez, coloco as roupas, a mulher que foi minha mãe não esta lá embaixo, havia indo pra noite do baile.

Eu ando, a neblina é incerta, a ponte avista, com um sorriso longe caminho, com um choro perto recuo, estou no meio da ponte, olho pra trás, lembro dela, do vídeo, lembro dos daqui, tenho 16 anos, volto pra trás, entro na noite do baile, todos sorri, danço com ela, minha mãe.

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