Talvez alguém saiba da onde eu vim. Onde nasci. Não lembro de nada. Às vezes me pego perguntando para mim mesmo. Será que eu tive um pai e uma mãe? Como deve ter sido minha infância. Minha recordação se resume a partir da noite que acordei perdido e descalço na avenida nove de julho ao meio de uma tempestade de janeiro.

Nos primeiros meses não tinha nome, amigos é teto para morar. Até vaga para dormir na rua era difícil de encontrar devido à super lotação. Meu nome surgiu de apelido dado por seu Ângelo, camelô antigo da rua São Bento. O proprio conseguiu um trabalho para mim.

Catador de objetos usados. Catava qualquer coisa que achava útil para vender no velho brechó da Conselheiro Crispiniano. Trabalho de segunda á segunda. Ganho pouco. No primeiro salário comprei madeiras para construir um barraco pra moradia. Consegui um lugar perto do córrego, ficava próximo ao terminal Parque Dom Pedro.

Da minha nova casa enxergo o metrô lotado toda manha. Agradeço a deus por não precisar pegar condução para poder trabalhar. Apesar da minha rotina semanal, sempre arranjo um tempo extra para entrar na catedral da sé. Gosto daquele ambiente porque ninguém lhe pedi pra sair ou te olha com julgamentos. Participo sempre quando posso das missas semanais. Lá dentro encontro outros moradores de rua, usando aquele espaço para dormir, ninguém os reprime.

Saio da igreja revigorado, tenho força de ficar o dia todo sem comer. O meu objetivo é conseguir ajuntar dinheiro, para contratar um detetive, igual aos do cinema é descobrir o meu passado.

Hoje completo um mês de trabalho.

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