Surgi no mundo sem perceber, cai neste buraco numa manha de segunda feira chuvosa, num hospital barato foi onde minha mãe morreu logo após de ter me conhecido, cresci no cu do mundo chamado Tiradentes, sempre morei com meu pai num prédio meio amarelado com manchas brancas que prometia ser pintado há mais de dez anos, raramente encontro com ele dentro de casa, no caminho da escola o vejo na porta do bar com um copo de velho barreiro na mão e com um rosto cansado do dia trabalhado.

Curso o 1° colegial pela terceira vez, agora faço supletivo. O inicio do ano passado parei de ir à escola por ter sido detido por vender droga. Aprendi na minha infância no campinho perto de casa que tinha um caminho fácil para conseguir comprar os produtos que passava na televisão, a marginalidade, relutei no começo, optei por outros caminhos, tentei aprender a raiz quadrada e os verbos, não tive êxito os professores faltavam o ano todo e os substitutos não estavam interessados no meu aprendizado, tentei ser jogador de futebol, descobri que tinha que ter empresário.

Vi muita gente da minha idade vender droga e conseguir comprar moto usando roupa de marca, um deles engatou um romance com a mina que eu tava afim. Continuei relutando por algum tempo, tentei procurar emprego, mais não tive dinheiro da condução, pedi trabalho nos comércios do bairro, respondiam que espantaria a clientela com minha cara de bandido.

No meu aniversario de 18 anos vi na novela um garoto completado a mesma idade e ganhando do pai um carro do ano. Sem nenhum presente desci as escadas e fui à biqueira pedir um trampo e na mesma noite comecei a vender drogas. Passou um ano e me sentia feliz igual o personagem da novela. Larguei a escola e recebi elogio dos meus amigos de serviço, fui exemplo para muitos que seguiram a carreira. Fiquei ambicioso e tive a idéia de voltar a estudar só para vender drogas dentro da escola, no segundo dia de aula fui preso no pátio do intervalo, passei um ano na cadeia porque ninguém pagou a fiança, tive sorte e sai por ter tido bom comportamento. Hoje faz onze dias que estou solto e espero conseguir esse emprego no programa segunda chance.

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